terça-feira, 21 de outubro de 2014

SERES HUMANOS VENDIDOS POR 5 DÓLARES. 27 MILHÕES DE PESSOAS ESCRAVIZADAS AO REDOR DO MUNDO



Há uma estimativa de que hoje tenhamos no mundo 27 milhões de seres humanos vivendo como escravos no mundo inteiro. Infelizmente o Brasil não é uma exceção.
Que o Aécio não se comprometa com a erradicação do trabalho escravo no Brasil é ultrajante. Para quem estiver na minha timeline e não souber nada sobre isso, indico três links. O primeiro do REPORTERBRASIL.ORG.BR e os outros dois são duas palestras do TED sobre trabalho escravo. As duas palestras estão em inglês mas basta ativar as legendas em português.

A segunda palestra abaixo indicada faz uma denúncia assustadora. Na Antiguidade e até mesmo o início da Idade Contemporâneo o ESCRAVO sempre foi muito caro. A novidade da Escravidão Moderna é o que o ESCRAVO NUNCA FOI TÃO BARATO. Há lugares em que o ser humano pode custar algo entre 5 e 10 dólares.

No Brasil, os escravos são mais baratos do que isso. Aqui eles são aliciados. São levados para a condição de trabalho escravo, e quando lá chegam ESTÃO DEVENDO PARA O DONO DA FAZENDA.






Neste link, com R$ 9,00 por mês vc ajuda o combate ao trabalho escravo no Brasil
http://reporterbrasil.org.br/com-apenas-r-900-por-mes-voce-ajuda-a-combater-a-escravidao-no-brasil/

O SAMBA DO AÉCIO DOIDO

DILMA: "Candidato Aécio, como o senhor interpreta o fato histórico do descobrimento do Brasil, por Pedro Álvares Cabral?".
AÉCIO: "Candidata Dilma, não seja leviana. A sra. está mentindo de novo!. Pois todo mundo sabe que o Brasil foi descoberto no governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, pelo próprio ex-presidente! Aliás foi ele quem gritou TERRA À VISTA. Ele ficou tão emocionado que pulou do seu jet-ski e foi o primeiro brasileiro a pisar em Copacabana. Pedro Álvares Cabral, filho do Dom Pedro I, e irmão do João VI, chegou um pouquinho mais tarde, na Caravela Santa Maria, dirigida pelo Cristóvão Colombo. A Sra. está sendo leviana. A sra está mentindo ao excluir desse fato histórico a presença do PSDB. Pois esta expedição foi financiada e promovida pelo PSDB". Saiba a Sra. que o ex-presidente FHC foi recebido pessoalmente pelo Tiradentes, que foi condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo e não pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Aliás o que é que sra tem contra os mineiros?"

sábado, 18 de outubro de 2014

O JUIZ E A LOIRA DO BANHEIRO



O JUIZ E A LOIRA DO BANHEIRO.

Semana passada encontrei um amigo, juiz, classe média, anti-petista roxo. Colega meu de muitos anos. E como não podia deixar de ser começamos a conversar sobre a eleição. Conversamos muito sobre os candidatos, ele com seus argumentos e eu com os meus. E foi uma  conversa excelente e de alto nível. Até o momento em que ele cometeu um deslize e repetiu um truísmo, um refrão que não poderia ter saído da sua boca. Ele começou a falar sem nenhum conhecimento de causa a respeito do programa bolsa família. Que ele acha um absurdo que essas pessoas recebam R$ 70,00 por mês! Isso é uma esmola que compra votos, blá, blá, blá...

Eu tentei explicar, sem aprofundar muito,  que o bolsa família não é nada disso. O voto não estava sendo trocado por um botijão de gás ou por uma dentadura! Esses R$ 70,00 são contínuos. O programa bolsa-família é uma etapa na construção de uma rede de proteção das pessoas em estado de profunda vulnerabilidade. O recebimento das parcelas está vinculado a uma análise da situação da família. A criança tem que estar na escola. Quem recebe é a mulher. Com essa mixaria as crianças ficam menos doentes e depois o estado economiza em saúde. Com essa ninharia as pessoas deixaram de morrer de fome, há menos pessoas com raquitismo e anemia crônica. As crianças são alfabetizadas. Essas crianças serão pessoas adultas que poderão pelo menos ler e escrever e por consequência terão empregos mais decentes. Nem interessa o que os próprios beneficiários pensam, afinal, pode até ser que alguns digam que não precisam trabalhar porque recebem este benefício. Mas o que eles dizem, sob este aspecto não é relevante, desde que as crianças estejam na escola, desde que eles adoeçam menos, desde que o alfabetismo diminua...

E como este meu colega é um sujeito muito ponderado, muito centrado, ele acolheu meus argumentos. Mas continuou inamovível. Então eu apelei. Só que antes de dizer o que fiz quero afirmar em primeiro lugar que eu já fui servidor público. Tenho muito respeito por essa categoria, porque ao contrário da caricatura de que servidor público não faz nada, eu sei por experiência própria que essas pessoas trabalham muito. Mas não é esse o assunto. Eu só quis apresentar meus sinceros respeitos em primeiro lugar porque já fui servidor público por duas vezes. Trabalhei no Departamento de Fundos de Gestão e Investimentos do Ministério da Integração Nacional em Brasília, como concursado. Também trabalhei na Justiça Federal de São Paulo, também como concursado. E ainda pretendo retornar à Administração Pública como servidor concursado, num quadro equivalente ao desse meu amigo.


Depois dessa digressão voltemos à discussão com meu colega juiz. Eu fiquei perplexo pelo fato de que argumentos racionais não o convenceram de que o bolsa família era um programa legítimo, afinal a sua opinião estava ancorada numa paixão anti-petista radical promovida e alimentada pela sua leitura semanal, pelas suas posições “vejistas” e suas citações de Reinaldo Azevedo, Constantino e Cia.

E por mais que eu falasse dos benefícios que esses R$ 70,00 podem fazer em benefício de uma família inteira, ele ainda veio me falar de uma certa família que recebia mais de R$1500,00 de bolsa família. Eu ainda argumentei: “Excelência, esta família que recebe R$ 1500,00 por mês, se é que ela existe, ela deve ter pelo menos uns 19 membros, todos muito pobres e vivendo com essa fortuna de R$ 1500,00 uma vida como nunca viveram.

E aí veio meu argumento apelativo: “Mas me diga uma coisa. Com todo o respeito. Por que essa família com quase 20 membros não pode receber R$ 1500 para comer?  Por que uma outra família não pode receber R$ 70,00 para matar a fome, e os magistrados podem receber R$ 4300 de auxílio-moradia?” E continuei... “Vou ser muito sincero. Eu também gostaria de receber este mesmo valor de auxílio-moradia. Eu só não entendo porque o senhor pode receber e aquele miserável que não tem literalmente onde cair morto, não pode receber um sessenta avos do seu auxílio moradia”. Fiz a conta de cabeça, dividi 4200 por 70 e vi que dava 60. Então continuei... “agora é que eu não entendo mesmo. O que o senhor recebe daria para sustentar 60 famílias em um mês. Se cada família tiver pelo menos 4 pessoas, são 240 pessoas”.

“Então eu estou sem entender duas coisas. A primeira é a seguinte : 1. Por que o senhor pode receber essa bolsa-moradia, sendo que além dessa bolsa-moradia o senhor ainda tem o seu salário de pelo menos R$ 15 ou R$ 20 mil reais? Por que o miserável não pode receber R$ 70,00 para comer, sendo que além dos R$ 70,00 ou R$ 1500 (que serão gastos prática e exclusivamente com alimentação e cuidados básicos) essa população não recebe mais nada? 2. Por que o miserável que se sente abençoado com esta bagatela não pode votar no mesmo governo que lhe concedeu este direito, benefício ou garantia sem ser acusado de estar vendendo seu voto por R$ 70,00? E por que o senhor que está recebendo este aumento fantástico de R$ 4300,00 desse governo, vai votar no candidato da oposição cujo partido só prejudicou os servidores federais? Eu mesmo, quando era servidor da Justiça Federal recebia uma indenização que salvo engano, já não me lembro muito bem... era em torno de R$ 500 ou R$ 600, cuja rubrica era auxílio alimentação. Isto para além do meu salário. Tratava-se de um valor pequeno que na verdade é quase dez vezes mais do que o valor mínimo da bolsa-família. Por que eu  posso receber isso e o beneficiário do bolsa-família não pode? 

E como esse amigo, tal como eu disse, é um cara muito sensato, ele me disse humildemente: “Rubão, eu não sei te responder. É meio covardia discutir com vc. Parece que vc sempre tem argumento para tudo”.

E eu continuei: “Amigo, excelência... não se trata de ter argumento para tudo. Trata-se apenas de mostrar que 90% da classe média que vai votar no Aécio, está sendo manipulada emocionalmente. Um dia desses alguém me disse que ficou sabendo por um amigo de um amigo que há um complô comunista que vai dividir todas as casas da classe média. E que vai colocar uma família em cada quarto da sua casa. E eu me perguntei como é que alguém ainda pode acreditar nisso? Vc acredita nisso, excelência?”

E ele me respondeu: “Rubens, eu já ouvi essa história. Mas vc acha que isso é mentira mesmo? Vc não acha isso possível? Eu tenho medo disso”.

“Excelência, quando alguém te diz uma coisa absurda, fica difícil responder racionalmente, argumentativamente. Esta história é absurda. Esta história tem a mesma base que aquela história da LOIRA DO BANHEIRO. Como é que eu vou provar que a história da LOIRA DO BANHEIRO é mentira? Afinal sempre tem um amigo de um amigo de um primo que jura pela alma da mãe dele, que ele viu a LOIRA DO BANHEIRO. 

Na verdade, a história é completamente  oposta. O senhor, salvo engano, construiu duas casinhas geminadas para vender não foi? Vendeu-as rapidamente, não vendeu? Pois é. O problema não é a sua casa ser dividida para que quatro famílias morem nela. Isso não vai acontecer. O problema é a sua casa não ser vendida, por falta de financiamento. Terá gente querendo comprar, mas não terá o auxílio do governo para ajudar essas pessoas a comprar. Aí sim, sabe o que vai acontecer?? A sua casa que não foi vendida, pode virar uma casa fantasma, abandonada. Aliás, um ótimo lugar para a LOIRA DO BANHEIRO MORAR!!” Portanto, acho melhor o senhor ter mais medo da LOIRA DO BANHEIRO do que da invasão promovida por um maquiavélico complô comunista”.


Aqui no interior de SP, onde moro, eu conheço muita gente que trabalha na construção civil. Muita gente mesmo. Muitos construtores, muitos pedreiros, carpinteiros, pintores. Os meus amigos construtores (e concorrentes) nunca construíram tanto e nunca venderam tantos imóveis como venderam nesses últimos 12 anos. Nessa última década o financiamento para a casa própria ficou aberto de forma ininterrupta. A gente não encontra pedreiro, pintor, carpinteiro... estão todos trabalhando, registrados, com carro, moto, internet...


Durante os oito do FHC o financiamento abria, depois fechava. Ficávamos anos sem conseguir vender um imóvel, porque o financiamento estava fechado. Aí o financiamento abria de novo. E de repente fechava.  Mão-de-obra sobrando. Muita gente desqualificada e desempregada.
Se o PSDB ganhar novamente a presidência da República, uma das primeiras decisões do governo será o fechamento do financiamento da casa própria. Pois isso terá um efeito em cascata que vai atingir todo o Brasil. O setor da construção civil vai estagnar. Toda a sua cadeia produtiva ficará interrompida. O desemprego crescerá. E quem estava economizando para dar a entrada na sua casa própria vai gastar com eletrodomésticos ou vai pagar para deixar seu dinheiro guardando no banco enquanto seu mesmo dinheiro será emprestado a 10% ao mês.

Portanto, eu tenho mais medo da LOIRA DO BANHEIRO do que dessa tolice de complô  comunista que vai dividir a minha casa para os pobres morarem. Aliás quem de fato fez isso, combatendo o comunismo, e defendendo  o capitalismo foi o Sr. Adolf Hitler,  que expulsou os judeus de suas casas, e nas melhores casas colocou os oficiais da polícia alemã para nelas residirem (... uma singela ilustração disso está no filme A Lista de Schindler...)

É claro que a essa altura da conversa, o papo já estava mais descontraído e ainda tínhamos umas cervejas geladas para tomar. Depois ficamos contando piadas, e falando mal da vida alheia. Havia muita coisa que podia ser discutida em outros patamares de  argumentação... mas a conversa acabou aí.

Foi nesta conversa que consegui a confirmação de que a classe média de fato é a classe mais desinformada. Mas o pior é que ela se julga informada,  sobretudo porque lê “Veja” e assiste ao Jornal Nacional. Acredita no Azevedo e no Constantino. E depois fica repetindo truísmos que foram plantados na sua massa cinzenta e regados e adubados com o discurso do medo, o discurso de que vão tomar tudo que vc tem. Se vc andar na rua de noite, o homem do saco vai te pegar. Se vc votar na Dilma vão pegar tudo que vc tem.


Amigos, vivemos num estado de direito. Por maiores que sejam as mazelas e a corrupção sistêmica que vemos, ainda estamos num estado de direito. Direito este que foi respeitado ao longo dos últimos doze anos. A maior fissura sofrida por este estado nas últimas décadas foi o confisco feito pelo Fernando Collor de Melo. Um candidato muito parecido com o Aécio.


Depois das garrafas vazias para encerrar aquela nossa conversa, eu fiz uma pergunta que era exatamente a pergunta que eu gostaria de fazer para todos os que, como eu, são classe média: “Fulano, a sua vida melhorou nesses últimos doze anos? Se melhorou é porque está melhor do que estava antes. Então por que vc vai votar naqueles que podem fazer com que a sua situação retorne ao que era antes?” Essa pergunta é muito objetiva! E a resposta também
No fim da noite, eu e meu amigo juiz nos despedimos e eu lhe disse para ter muito cuidado com a LOIRA DO BANHEIRO!!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A Fome, a Sede e os Desinformados



“Qual é o caminho certo da gente? Nem para a frente nem para trás: só para cima”. Riobaldo. GSV.
Vencer a FOME e a SEDE. Dois desafios mínimos que já deveriam ter sido enfrentados há muito tempo nesse país. Se nos últimos anos só isso tivesse sido feito já teria sido muito bom para o país. Mas para além da superação da FOME e da SEDE foram feitas muito mais coisas. O Juscelino falava de 50 anos em 5. Nestes doze anos se alcançaram resultados que até então não tinham sido nem buscados e muito menos alcançados em 500 anos. Para além de todas as mazelas (obras atrasadas, dinheiro desviados corrupção e tudo mais) que infelizmente parecem ser atávicas aos políticos desse país, o que se alcançou não pode ser perdido.
Fui professor Universitário e Diretor Acadêmico. Conheci jovens que saíram de cidades remotas e que tiveram uma ascensão social, em 3 ou 4 anos. Uma ascensão que seus pais não conseguiram alcançar nem em 20 ou 30 anos. Às vezes nem em 60 ou 70 anos. Jovens que saíram da pobreza e conseguiram entrar numa faculdade (seja pelas cotas ou pelo PROUNI). A entrada na faculdade lançou o jovem num estágio e do estágio para um emprego muito melhor do que derrubar roça para plantar capim. Na condição de professor e diretor vi os alunos conseguindo fazer sua faculdade, única e exclusivamente, por causa do PROUNI. A ascensão desses jovens foi vertiginosa. E a condição atingida fará com que qualquer possibilidade de retrocesso social seja inadmissível para esses jovens.
Por causa disso o desafio subsequente do governo é que a população favorecida por todos esses programas sociais vai alcançar uma condição superior que lhes permitirá exigir mais do que lhes foi concedido e conquistado, e o governo terá que dar conta disso. Ou seja, como consequência da saída da pobreza, como consequência da entrada na universidade, como consequência da conquista de uma situação melhor, essas pessoas vão desejar conquistar algo mais. A estagnação não será uma opção e o retrocesso social também não será uma alternativa. Com R$70 ou R$ 200 é possível fazer uma diferença absurda na vida de quem não tem nada e corre o risco de morrer de sede e de fome.
Mas depois desta ascensão, as exigências e os desafios vão se tornar mais complexos.
Se o PSDB não conseguiu sequer matar a fome a sede desses brasileiros que ascenderam socialmente, como dará conta desse novo contingente com anseios mais complexos e mais caros??
É muito pouco provável que o governo do PSDB consiga fazer essas duas coisas: permitir a ascensão social e dar conta da demanda criada por essa mesma ascensão. O que significa que a possibilidade do PSDB estragar tudo é muito grande. Se o PSDB ganhar, o eleitorado DESINFORMADO estará jogando a água suja junto com a criança. Não haverá avanço e ocorrerá retrocesso.
Atualmente tenho trabalhado como advogado e administrador de imóveis. E tenho visto o seguinte. Os imóveis que administramos nunca tiveram um índice de ocupação tão alto e ao mesmo tempo um índice de inadimplência tão baixo. A grande maioria desses imóveis são quitinetes ou imóveis pequenos para famílias pequenas. Muitos locatários deixaram esses imóveis porque conseguiram comprar um apartamento pelo Minha Casa Minha Vida. Mas ao mesmo tempo muitas pessoas tiveram uma ascensão social suficiente para vir morar nesses mesmos imóveis que foram desocupados pelos brasileiros que deixaram de ser inquilinos para serem proprietários. Até dez anos atrás, muitos desses locatários não tinham automóveis. Hoje, todos precisam alugar um imóvel, ainda que pequeno, com pelo menos uma vaga de garagem. E às vezes, as mesmas pessoas que alugam esses imóveis já possuem dois automóveis. Esses novos locatários têm tudo: além do seu automóvel, eles têm TV de tela plana 3D, eletrodomésticos, smartphones, fogão elétrico, geladeira, máquina de lavar roupa, notebooks, tv por assinatura, Blu-ray, internet com banda larga e muitos frequentam a faculdade. E o melhor de tudo: estão todos empregados.
Digo isso, pois vejo isso todos os dias. Não estou falando de dados, estatísticas, números desta ou daquela pesquisa. Estou falando apenas daquilo que vi e vivenciei nos últimos anos. Estou falando do que vivo todos os dias.
Por causa dessa minha argumentação alguém me disse o seguinte: “Ah, então vc está votando no PT, da mesma forma que esses miseráveis que recebem o Bolsa Família votam. Vc vota no PT porque vc está sendo favorecido!! Vc vota em causa própria!!” E o amigo que me disse isso, me disse como se eu estivesse cometendo um crime. VOTAR EM CAUSA PRÓPRIA NÃO PODE!! RSRS.
Respondi... Meu amigo, e qual o problema da pessoa pobre votar em causa própria? Desde quando votar em causa própria é ilegítimo?? Só porque é pobre e é beneficiário do bolsa família, o voto dele em causa própria é um voto desqualificado? Ou como disse o príncipe dos sociólogos, quem vota nos grotões do país vota no PT porque é desinformado? Na verdade, o fato de as pessoas que vivem nesses grotões votarem massivamente no PT é MARAVILHOSO. É um sinal de que as políticas públicas chegaram nesses lugares abandonados e distantes. É sinal de que todo o mecanismo de fazer R$ 70,00 chegarem nas mãos de uma mulher sertaneja e pobre, por mais burocrático e complexo que seja, funcionou. E o dinheiro chegou lá sem ter sido desviado. Essas pessoas foram alcançadas pelo Estado. A longa manus do Estado chegou lá de verdade. Ora, essa multidão de pobres está certa em votar em interesse próprio. Elas não estão apenas certas. Isso é um direito delas e um dever delas para com elas mesmas. Afinal, o rico pode votar em causa própria. O pobre não ?!. É isso? O rico pode votar em causa própria e o pobre deve votar em favor do rico, pois quando não vota em favor do rico ele é desinformado, massa de manobra.
MASSA DE MANOBRA É AQUELA PARCELA DA POPULAÇÃO QUE VOTA CONTRA SI MESMA. Que o rico vote em seu favor é admissível. Que o pobre também vote em causa própria TAMBÉM É ADMISSÍVEL. Aliás é exatamente esta a beleza de uma coisa chamada DEMOCRACIA.
O que é incabível é o oprimido votando no opressor. É isso que causa mais indignação aos verdadeiramente INFORMADOS. Infelizmente, os chamados DESINFORMADOS são pessoas pobres e sem escolaridade, mas que SABEM MUITO BEM distinguir entre um prato vazio e um prato CHEIO DE COMIDA.
Só que na verdade, os verdadeiros DESINFORMADOS sabem ler e escrever E NÃO ESTÃO nos grotões do Brasil. E a maioria deles está dentro de uma camada da população chamada CLASSE MÉDIA que MORRE DE MEDO DE FICAR POBRE e vive sonhando em FICAR RICA. Como diz um amigo meu... “Rubão, eu só tenho medo é de ficar pobre. Porque ser pobre é uma merda”.
E tal como a Danuza Leão expressou muito bem, a classe média odeia ou tem um medo terrível de ter pobre por perto, porque isso a aproxima dos pobres. Essa proximidade infecta é uma ameça ao sonho de se tornar rico. Mas como há muito mais pobres do que ricos, é mais fácil a classe média ver os pobres se aproximando dela, do que ela se aproximar e se encontrar com ricos de verdade. Com isso, a ascensão e aproximação dos pobres criam a ilusão social de que a classe média está empobrecendo, quando na verdade, no conjunto de todas as coisas é a sociedade que está se aperfeiçoando, diminuindo os índices de violência, melhorando as condições de saúde da população, aumentando a segurança pública, incrementando uma rede eficaz de proteção e tudo o mais.
Por causa desta ilusão de ótica, ou por causa desta ilusão social, os brasileiros da classe média, sentem-se ameaçados e acham que é melhor votar no PSDB, que defende os interesses de uma elite (admirada pela classe média), e que na verdade não está nem aí para a classe média. A classe média vota no PSDB porque vota no sonho de que pode ficar rica, votando no candidato da elite.
Quando na verdade isso é um tiro no pé. Sobretudo porque os ricos de verdade, nesse país são apenas 20.000 (vinte mil famílias), talvez umas cem mil pessoas apenas. E no fundo, no fundo, para desconsolo da classe média, ela está muito mais próxima socialmente dos pobres e infinitamente distante dos muito muito muito ricos. Votando na elite mais abjeta que esse país possui, o brasileiro classe média não consegue fazer exatamente aquilo que os mais pobres estão fazendo: VOTAR EM CAUSA PRÓPRIA. Como a classe média não sabe de que lado ela está, ela não sabe em quem votar. Esta situação faz com que a classe média seja a verdadeira parcela DESINFORMADA DA POPULAÇÃO. Pois não sabe em quem votar, não sabe de que lado está, e como regra, vota no OPRESSOR e naquele político que vai prejudicá-la. A classe média vota naqueles que estão mais longe de defender os interesses da própria classe média.
Hoje temos o seguinte quadro. O rico vota em causa própria. E os pobres também, graças a essa invenção maravilhosa chamada DEMOCRACIA. Apenas a classe média – que se acha informada – não vota em causa própria. Pois vota nos interesses daqueles que ela gostaria de ser, em detrimento dos interesses daquilo que ela efetivamente é: classe trabalhadora, sem almoço e sem janta grátis.
Assistindo de camarote a ascensão daquela juventude pobre que conseguiu alcançar os bancos do ensino superior e profissionalizante e vendo no meu cotidiano a população que passa a morar nos meus imóveis, consigo ver e participar emocionado de um momento de crescimento e de avanço vertiginoso na qualidade de vida das pessoas com quem me encontro diariamente. Eu vi de onde muitas dessas pessoas vieram. E ao passarem pela minha vida, as vejo subindo degraus.
E após conhecer o projeto Renda Básica de Cidadania do ex-senador Eduardo Suplicy, percebi que ele não deveria apenas ser re-eleito. Ele deveria ganhar o prêmio Nobel da Paz. A implementação deste projeto no Brasil faria com que milhões de pessoas subissem escadarias inteiras e não apenas alguns degraus. Mas São Paulo conseguiu tirar o Suplicy e colocar o Serra! Eu sei que o Suplicy não inventou a RENDA BÁSICA. Trata-se de uma experiência realizada primeiramente num lugar muito longe daqui. Mas como é que se pode fazer uma troca como essa? Eu tenho a explicação: porque os eleitores do Serra são pessoas DESINFORMADAS. E o mais grave. São desinformadas sem viverem nos grotões do país tal como disse o FHC PhD. São eleitores que votam apaixonados por algo que nunca será deles. Mas tudo bem, é nisso que também está a beleza da democracia. Conta-se que uma vez perguntaram para o Mastro Antonio Carlos Brasileiro Jobim se ele preferia viver em Nova York ou no Rio de Janeiro. Ele respondeu: Morar em Nova York é bom, mas é uma merda. Morar no Rio é uma merda, mas é bom. Parafraseando o Maestro, podemos dizer que para alguns a DEMOCRACIA é muito boa, mas é uma merda. Para outras, a DEMOCRACIA é uma merda, mas é muito boa. Agora é a hora de acreditar que a DEMOCRACIA continua sendo MARAVILHOSA, apesar do Serra! O grande problema é que durante os próximos 8 anos o paulista e o paulistano, que 'sisificamente' precisam dar conta de sua rotina de carregar sua pedra montanha acima, agora terão que rolar sua pedra SERRA ACIMA!
Para além de tudo, lembro de meu primo Celso Aparecido Sampaio indignado com a eleição de Jânio Quadros para a Prefeitura de SP. E meu primo dizia: "a minha vingança é que ele será prefeito de quem votou nele!!" Fazer o quê? Espero que os paulistanos SUPLYQUEM pelo retorno do Eduardo após 8 anos subindo a SERRA. Afinal como dizia o mestre Guimarães Rosa que começa e termina esse meu texto "Vingar é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais" GSV.
E caso alguém ache que sou DESINFORMADO, ainda que possa parecer petulante e pernóstico, sinto-me na obrigação de informar que sou formado em Filosofia. Mestre e doutor em Filosofia. Também sou Advogado, Especialista em Direito Público e Direito Constitucional, além de possuir um MBA numa das melhores faculdades de administração do mundo. Se alguém ainda achar que sou desinformado, a parcela de verdade disto pode ser consequência de eu não ser leitor da Veja e de não gostar daquelas absurdidades escritas por nomes que eu nem não quero colocar aqui, afinal como não ler a Veja se na região em que moro há cerca de 5000 assinantes deste hebdomadário. Na mesma região há 15 assinantes da Carta Capital. Eu sou um deles. E 5 assinantes do Le Diplo. Também sou um deles. E voto PT. Voto DILMA!!
“Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas. Veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção”. Riobaldo. (João Guimarães Rosa – GSV).
Rubens Godoy Sampaio

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sobre a polêmica em torno das células troncos. A noção de forma de vida humana como conceito abrangente e unificador da discussão.

Este texto foi publicado no site DIREITONET por ocasião da polêmica em torno das células troncos no STF. E foi republicado aqui com pequenos ajustes e acréscimos.
  
Tal como a Ministra Ellen Gracie, adiantarei meu voto: sou a favor da pesquisa com os embriões humanos. Todavia entendo que toda a discussão e a fundamentação dadas pelo Ministro Carlos Ayres Brito está comprometida pela compreensão equivocada do que seja vida humana, associando   a vida humana à presença do sistema nervoso central, tal como ele disse em seu voto: Faltam-lhe (ao embrião) todas as possibilidades de ganhar as primeiras terminações nervosas que são o anúncio biológico de um cérebro humano em gestação. Numa palavra, não há cérebro. Nem concluído nem em formação. Pessoa humana, por conseqüência, não existe nem mesmo como potencialidade. Pelo que não se pode sequer cogitar da distinção aristotélica entre ato e potência, porque, se o embrião in vitro é algo valioso por si mesmo, se permanecer assim inescapavelmente confinado é algo que jamais será alguém. Não tem como atrair para sua causa a essencial configuração jurídica da maternidade nem se dotar do substrato neural que, no fundo, é a razão de ser da atribuição de uma personalidade jurídica ao nativivo. 


Definir conceitualmente a vida é uma tarefa que está na base de toda a biologia. E isto não é nada fácil, assim como não é fácil para a ciência jurídica definir o que é o direito ou a norma jurídica, assim como não é fácil para a psicologia definir o que é o psiquismo, assim como não é fácil para a física definir o que é a matéria. Esses conceitos fundantes de todas as áreas possíveis do conhecimento sempre são muito controversos.


No entanto ainda que para a biologia seja difícil definir de maneira clara e evidente o que seja a vida, a biologia, de ordinário, sabe com toda certeza quando algo está vivo ou não. Não há dúvidas de que o fruto mais imediato da concepção humana já é algo vivo. Por mais primitiva e simples que seja esta forma de vida humana, trata-se de algo vivo. E, qualquer estudante do Ensino Médio sabe que o embrião já possui toda a carga genética necessária para desenvolver tudo que será preciso para se tornar um adulto completamente desenvolvido. E não obstante a semelhança do embrião humano com outras formas embrionárias de outros animais, o DNA daquele embrião é o DNA de um ser humano. E mais do que nunca, sabemos que através do reconhecimento do chamado DNA mitocondrial é possível estudar a “linhagem” de todos os seres humanos do planeta e afirmar que todos nós, de fato, fazemos parte de uma única espécie de antropóides hominóides. Enfim, para saber se este ou aquele embrião é humano ou não, basta fazer um simples teste disponível em qualquer laboratório de genética.


Além disto, a vida é marcada por uma linha de continuidade ininterrupta, pois a vida, toda ela, só continua porque não há intervalos, não há gaps no processo de reprodução. Uma forma de vida tão complexa, como a vida humana, só pode proceder de outra forma de vida equivalente. Não temos tecnologia suficiente para gerar a vida humana, em laboratórios, a partir de elementos inorgânicos. Ou seja um homem e uma mulher (vivos) são capazes de produzir uma outra coisa viva, que resultará numa forma de vida semelhante àquele homem ou àquela mulher. Para que haja a descendência humana é necessário que o fruto do relacionamento humano seja uma forma de vida humana, que se desenvolverá e percorrerá várias fases de desenvolvimento e passará por várias formas humanas possíveis.


Entre uma geração e outra geração não há uma forma de vida intermediária que possa ser desqualificada de suas prerrogativas humanas. Não há, muito menos um “par de parênteses” dentro dos quais haja algo não vivo. E esta linha de continuidade é tão incontroversa, que faz com que os filhos se pareçam com os pais, fisicamente e muitas vezes comportamentalmente. Se não houvesse esta linha de continuidade a vida e as espécies não se perpetuariam no tempo. Não cabe falar que o embrião não tem potencialidade para se tornar humano, porque é exatamente esta a sua maior característica, a saber a potencialidade intrínseca para tornar-se semelhante (um ser humano) àquilo que lhe deu origem (seus pais humanos). Afirmar o que o Ministro afirmou, é a mesma coisa que dizer que o branco é preto.


A antropologia e a ciência como um todo fazem o seu discurso sobre o ser humano a partir de uma idéia de homem acabado e desenvolvido, completo, a saber, a partir do ser humano adulto. Uma antropologia mais clássica, que vem lá de Platão e Aristóteles, passando por toda a filosofia ocidental afirma que o ser humano é um ser dotado de racionalidade e liberdade. Outros discursos afirmam que todas as comunidades humanas são constituídas por seres bípedes portadores da prerrogativa da linguagem. Estas seriam duas outras características essenciais do ser humano (a bipedia e a linguagem). Mas para as ciências do desenvolvimento humano há muita diferença entre um filhote humano de 3 meses de idade, e outro filhote humano com 2 anos de idade, com 5, 10 anos que vai crescendo, e se torna adolescente, jovem, adulto e velho, e finalmente morre. E para as mesmas ciências é inconteste que durante os meses de gestação é possível detectar a presença de uma sucessão de formas distintas de vida humana: o ovo, o embrião, o feto, e depois um bebê completamente inapto para qualquer coisa e que apesar de ter um cérebro bem grande (e que ainda vai crescer) não consegue fazer absolutamente nada sozinho, e que, sem alguém para lhe oferecer cuidados mínimos certamente não conseguirá ultrapassar esta fase de seu desenvolvimento.


Meus filhos, quando tinham 3 meses de idade não eram nem racionais, nem livres, nem bípedes e nem falavam. Com 8 meses, eles se tornaram quadrúpedes e começaram a engatinhar. Com 12 meses começaram a se tornar bípedes e a postura ereta liberou as mãos e esticou as cordas vocais para que eles começassem a falar mais articuladamente. Com 18 meses, na frente do espelho eles começaram a perceber que aquele reflexo eram eles mesmos, e começaram a desenvolver a sua autoconsciência. É possível que até os 24 anos eles ainda precisem de mim para pagar suas faculdades... Enfim, para encurtar... o ser humano é um ser em desenvolvimento e que ao longo desse itinerário de crescimento e desenvolvimento vai passando por várias fases ou formas possíveis. O mais interessante de tudo é que meus dois filhos (um casal) repetiram em seus poucos anos de vida, tudo aquilo que a vida como tal demorou 2 bilhões de anos para realizar: em algum momento e por algumas horas meus filhos foram unicelulares – e a vida durante bilhões de anos foi unicelular; depois aquela única célula presente no útero de minha esposa começou a se dividir – o mesmo aconteceu com a vida no planeta, que de unicelular começa a produzir seres pluricelulares; em algum momento do desenvolvimento de meus filhos eles apresentam estruturas que parecem guelras, depois eles parecem pequenos girinos, depois eles apresentaram caudas... enfim cada um de meus filhos, no ventre de sua mãe, e depois fora do ventre repetiram, apressadamente, muito apressadamente (e ainda continuam dentro deste processo) tudo que a vida na Terra realizou em bilhões de anos. Tecnicamente falando se diz que a ontogênese (o desenvolvimento do indivíduo) repete a filogênese (o desenvolvimento da espécie). Em termos metafóricos, cada um de nós repete toda a aventura da vida no planeta. Ninguém chega aqui de pára-quedas. Antes de começarmos o nosso espetáculo, cada um  de nós passou por uma prova de fogo que foi reviver 2 bilhões de anos em apenas alguns meses durante a vida intra-uterina, e mais algumas centenas de  milhões de anos a partir da vida extrauterina.


Com esta argumentação estou querendo explicitar um conceito que pode ser de muita utilidade para toda esta discussão: o conceito de formas de vida humana. E a passagem de uma forma de vida humana para outra, a passagem de uma fase para outra não se dá de forma abrupta (discreta, per saltum), mas de forma gradual (contínua). A passagem da condição de ovo para embrião, de embrião para feto, de feto para bebê, e assim sucessivamente não se dá da mesma maneira como o milho se transforma em pipoca, de repente. E mesmo porque estas “passagens” são invenções nossas. Fomos nós que dissemos que até tantas horas de vida aquilo é um ovo, até tantas semanas aquilo é um embrião, e depois é um feto. São “passagens” nominais, que existem porque nós demos nomes a elas. Porque de fato não há passagem alguma. Há na verdade um processo contínuo de desenvolvimento, sem interrupção e sem check-points. O estabelecimento destes marcos (check-points) é um estabelecimento artificial, didático. Ora, todos sabemos que o conceito de infância foi uma invenção do século XIX, e a adolescência, como fase de desenvolvimento humano foi estabelecida no século XX. Terceira idade, Quarta idade são novas invenções da sociedade contemporânea.


Mas o que interessa mesmo é perceber que se trata de um processo contínuo de desenvolvimento muito acelerado nos primeiros anos de vida (gestação, nascimento e infância) e mais lento nas etapas seguintes. E, por isto, é sim, muito pertinente se cogitar da distinção aristotélica entre ato e potência, por que não?


Portanto, não tem cabimento falar que o embrião não está vivo, que o embrião não tem sistema nervoso, que o embrião não tem isto ou aquilo, para desqualificá-lo de suas prerrogativas antropológicas e, por conseguinte, permitir que façamos com ele o que quisermos. Já fizemos isto com negros, destituindo-os da alma humana, para que assim se justificasse a escravidão. Já fizemos isto com judeus, destituindo-os de sua cidadania e de sua humanidade para jogá-los em câmaras de gás. Já fizemos vivissecção com presos! E hoje ainda fazemos vivissecção com animais, não obstante todo o movimento de repúdio a esta prática tão presente em laboratórios e universidades. Enfim, o embrião é apenas UMA DAS PRIMEIRAS FORMAS DE VIDA HUMANA pela qual todos nós passamos necessariamente, e por isto é impertinente que ele seja destituído de sua participação na condição humana.


Quando o Ministro diz “Faltam-lhe (ao embrião) todas as possibilidades de ganhar as primeiras terminações nervosas que são o anúncio biológico de um cérebro humano em gestação”, ora é exatamente o contrário. Uma sementinha de mamão não tem nenhuma possibilidade de ganhar terminações nervosas. Mas aquele embrião humano é a única coisa no mundo que tem possibilidade de desenvolver terminações nervosas para desenvolver um sistema nervoso extremamente complexo.


“Numa palavra, não há cérebro. Nem concluído nem em formação. Pessoa humana, por conseqüência, não existe nem mesmo como potencialidade”.


Aqui há uma falha primária de lógica porque a primeira premissa (MAIOR) é falsa. Porque o cérebro é uma parte do sistema nervoso que está sim em formação. A formação do sistema nervoso central começa do começo, da sua condição mais simples. O que não é possível é um cérebro surgir sem antes passar pela condição de ovo, embrião e feto... E, portanto, a pessoa humana adulta e desenvolvida só surgirá em decorrência destes primeiros desenvolvimentos embrionários.


O Ministro afirmou que “Não tem como atrair para sua causa a essencial configuração jurídica da maternidade nem se dotar do substrato neural que, no fundo, é a razão de ser da atribuição de uma personalidade jurídica ao nativivo”. Um bebê recém-nascido, em função de sua absoluta inaptidão para viver por si só, também não tem como “atrair para sua causa a essencial configuração jurídica da maternidade”, caso venha a ser abandonado nas ruas de uma cidade qualquer. Qualquer bebê recém nascido é absolutamente incapaz de viver sem algum cuidador, e nem por isso ele é destituído de sua humanidade... Os filhotes dos répteis nascem e não precisam de seus pais (vejam-se os casos das tartarugas, dos lagartos, dos camaleões). Seres complexos como nós, não nascemos completos e acabados, nascemos incompletos, porque precisamos de muito mais tempo para desenvolver e o nosso desenvolvimento começa na vida intra-uterina e se estende, se prorroga, na vida extra-uterina. E a necessidade de cuidado continuado permanece nos primeiros meses de vida para a maioria dos mamíferos de grande porte. E no caso humano, permanece durante muitos anos.


E aqui caberia outra pergunta: quando é que estamos completos? Quando é que estamos acabados? Quando é que deixamos de estar em desenvolvimento? Talvez, apenas quando estivermos mortos. Desta forma é muito pertinente afirmar que uma característica fundamental e essencial do ser humano é justamente esta: estar em desenvolvimento. O ser humano é um ser em desenvolvimento desde o seu mais tenro início até o momento final de sua vida. Alguém poderia responder que seu desenvolvimento atingiu sua completude quando tal sujeito pode viver de forma independente: quando conseguiu seu primeiro emprego?


“Pelo que não se pode sequer cogitar da distinção aristotélica entre ato e potência, porque, se o embrião in vitro é algo valioso por si mesmo, se permanecer assim inescapavelmente confinado é algo que jamais será alguém”. Mais uma afirmação generalizante cujo alcance está prejudicado. Ora qualquer criança que permanecer confinada jamais será alguém, jamais será uma pessoa plena e realizada.


Ora, como se vê, eu estou defendendo o embrião com unhas e dentes, mas por outro lado, já assinalei nas primeiras linhas deste texto que sou a favor das pesquisas. O que para mim está em jogo é a falha na argumentação de um voto que foi muito elogiado, mas que na verdade está fundamentado precariamente e cheio de falácias.


Meu objetivo é mostrar que o que deve ser discutido não é a natureza e as condições do embrião. Pois esta discussão está ultrapassada pelos avanços da própria biologia, é chover no molhado, e prescindir desta constatação faz com que a argumentação do ministro seja equivocada. Afinal se o embrião não tivesse as características mais essenciais do ser humano, nós não estaríamos querendo fazer pesquisas com eles. Ou seja, nós só queremos utilizar embriões humanos para pesquisa porque são embriões humanos. Se não fossem humanos não teríamos que ficar discutindo, talvez já estivesse tudo resolvido e poderíamos utilizar embriões de outros mamíferos mais complexos.


A questão, portanto, é a seguinte: em quais formas de vida humana é permitido intervir com finalidades científicas? A pergunta é mais forte. A resposta é mais grave, seja ela positiva ou negativa. Partindo desta nova questão, a decisão do STF é mais séria e terá mais repercussões do que a equivocada posição sobre a humanidade ou não do embrião humano.


E porque a pergunta é mais grave, as questões que se colocam alcançam um outro tom mais profundo e comprometedor, que devem ser analisadas com muito mais cuidado.


Para deixar mais clara a idéia de FORMAS DE VIDA HUMANA vale notar que um recém-nascido não fala e não anda. Um bebê, um filhote humano, uma criança dependem de forma quase que absoluta de seus pais durante seus primeiros meses e anos de vida. A criança não pode trabalhar, mas pode herdar. O Estatuto da Criança e do Adolescente indica que as prerrogativas das pessoas com 12 anos de idade são diferentes daquelas com menos de 12 anos. Os adolescentes com 14 anos podem trabalhar na condição de aprendiz. Com 16 podem votar. Com 18 anos o jovem tem que servir o exército, já pode dirigir e assinar contratos. Com 21, pode ser prefeito. Com 35 anos, Presidente da República. Com 60, pode se aposentar e furar fila. Com 70 não precisa mais votar. Quase todas as formas de vida humana estão agasalhadas pelo direito. O certo é que a vida humana, na sua mais absoluta integralidade, na sua mais absoluta temporalidade estivesse alcançada pelo direito.


Hoje são feitas pesquisas com crianças, com jovens e com adultos. Todavia são pesquisas cujo grau de intervenção não é letal. Muitas destas pesquisas exigem algum tipo de termo de consentimento. Também é inegável que as pessoas com morte cerebral ainda continuam vivas: respiram, o coração bate... e portanto, temos aqui mais uma forma de vida humana diante da qual já é relativamente pacífico um certo posicionamento que permite, sob certas condições a realização de pesquisas, a retirada de órgãos.


E até mesmo o cadáver é alcançado por certa proteção jurídica. Do cadáver, que já não é uma forma de vida humana, pois ele já está definitivamente destituído de batimentos cardíacos, de atividade respiratória e atividade cerebral, não podem ser retirados seus órgãos sem autorização prévia do sujeito, enquanto estava vivo, ou sem autorização da família. O cadáver não pode ser jogado no lixo, não pode ser violado em seu túmulo.


Enfim, quero afirmar que não dá para escapar do fato de que o embrião é uma forma de vida humana. E, portanto, o problema deve ser colocado sob outra ótica. Não cabe ao STF decidir se há vida humana ou não no embrião.Ao STF são atribuídas competências jurídicas. Quem pode dizer se algo minúsculo é vivo ou não é vivo é a simples observação feita por um biólogo, ou por alguém oriundo das áreas biológicas ou médicas. E para outros seres de tamanho maior, qualquer pessoa consegue falar se aquela árvore está viva, se aquele cachorro está vivo, ou se aquele ser humano está vivo com pelo menos 95% de chances de acertar. O STF não pode afirmar que um ser humano que está desempregado NÃO ESTÁ VIVO. Seria um absurdo. Da mesma forma que é um absurdo dizer que esta ou aquela forma de vida humana não está viva. Da mesma forma que não cabe a um médico a competência profissional de proferir uma sentença ou fazer a análise jurídica de um contrato, não ao STF dar pareceres sobre a situação de um ser vivo. Que grande confusão que foi feita aqui. 

 O STF pode decidir sobre quais formas de vida humana são passíveis de certos tipos de intervenção, decorrentes da pesquisa científica.Esta decisão está dentro do rol de suas competências jurídicas. E é uma decisão muito mais séria.


Por outro lado, considerando pois, que desde o início da concepção há vida humana, em última análise, o que está em jogo é quem vai pagar pela autorização ou pela proibição da pesquisa. Se a investigação científica for autorizada... os embriões são prejudicados. Se a pesquisa for proibida milhões de pessoas com os mais variados tipos de doença ou deficiência verão sua esperança se esvair... e outros milhões de pessoas que não estão doentes mas poderão ficar, também estarão privados de melhores chances de cura.


De um lado ou de outro, negar o uso e o recurso da tecnologia seria tão obsoleto como optar por não usar óculos, porque não nascemos com eles, ou tão arcaico quanto não tomar vacinas.


Enfim, a meu ver as duas posições acima (destruir embriões ou negar a tecnologia para os que nela têm a esperança da cura) são cruéis. Mas nem de longe elas se aproximam de outras práticas crudelíssimas, presentes na história da medicina, dentre as quais a vivissecção humana, certamente era a mais terrível de todas.


Outra questão que está em jogo é a investigação nas Universidades públicas, ou nas Instituições públicas de pesquisa. Afinal os grandes laboratórios de engenharia genética, os grandes laboratórios farmacêuticos, as grandes empresas na área da saúde não se submetem às leis nacionais e não vão deixar de fazer pesquisa em seus laboratórios por causa da legislação brasileira. Basta levar seus cientistas para outros países onde a pesquisa não está regulamentada ou onde é permitida, e às vezes, é até mesmo fomentada.


Com isto a única pesquisa prejudicada é aquela realizada nas instituições públicas, pois não poderão receber verbas públicas para tanto. E isto trará um grande prejuízo para a comunidade científica brasileira, que além das dificuldades ordinárias decorrentes de um orçamento sempre apertado, terá que lidar com a proibição da pesquisa. Não se matarão embriões, mas se matarão cientistas!


Repito que a questão central do debate é qual tipo de intervenção deve ser permitida ou proibida de ser realizada sobre esta ou sobre aquela FORMA DE VIDA HUMANA. Efetivamente, é isto que está sendo debatido no STF. No entanto a discussão está fora do foco e isto não pode acontecer na suprema corte nacional. Afinal, a destituição do embrião de suas prerrogativas humanas por uma corte jurídica tem como finalidade tornar a decisão mais fácil, afinal se o embrião não é humano é mais fácil autorizar esta ou aquela prática sobre o mesmo embrião.


Tendo pois, clareza de que o embrião humano deve ser compreendido como o estado humano necessário de uma das formas iniciais de vida humana, o problema é que as conseqüências de uma decisão como esta são bastante sérias e podem gerar precedentes muito sérios para um futuro não distante.


A forma mais segura de preservar o princípio da dignidade da pessoa humana é cobrir toda a extensão da vida humana com o atributo de sua dignidade: do seu início mais primordial ao seu fim último. Afinal, por enquanto, podemos dizer que um cadáver que vai apodrecer está mais bem protegido juridicamente do que os embriões que podem se tornar pessoas adultas.


Se a decisão do STF for orientada por uma idéia que destitua o embrião de suas prerrogativas humanas, como conseqüência lógica seria possível, num futuro próximo, destituir outros seres humanos, em situações limites, das mesmas prerrogativas e permitir que com eles se faça o que quiser. Afinal seria atribuição do STF dizer o que é humano ou não. Ou seja, se hoje estamos destituindo uma forma de vida humana, a mais tenra e a mais desprotegida, de suas prerrogativas essenciais, amanhã poderemos fazê-lo com outras pessoas em circunstâncias diferentes: com os muito velhos, com os desempregados, com os muito doentes, com os gays, com qualquer outra minoria...


Por outro lado, se concordarmos que estamos intervindo cientificamente em seres dotados de prerrogativas humanas, sejam eles embriões ou pessoas com 90 anos, também saberemos que nossas decisões sobre a possibilidade da realização de qualquer tipo de intervenção serão decisões muito mais graves e por isto mesmo, muito mais controladas e reguladas juridicamente. E, portanto, serão decisões mais seguras.







Um sistema em resposta ao niilismo ético - RUBENS GODOY SAMPAIO

Entrevista publicada na Revista IHU-online - Revista do Instituto Humanitas UNISINOS


De acordo com Rubens Godoy Sampaio, a envergadura sistemática da obra de Lima Vaz possui estrutura triádica e tem como desafio fundamental superar o niilismo. Relações intersubjetivas são constitutivas do ser humano, e ser-com-os-outros é seu aspecto ineliminável

Por: Márcia Junges

“O seu grande desafio como filósofo e padre foi justamente elaborar um discurso filósofico coerente, sólido, fundamentado em toda a grande tradição filosófica no seio mesmo da Modernidade, cujo selo é exatamente o do niilismo. Seu grande desafio foi estabelecer um diálogo com a tradição filosófica que permitisse a elaboração de um discurso sensato que superasse o niilismo. Ou seja, a filosofia de Henrique Cláudio de Lima Vaz é a obra de um homem de fé, que professa o cristianismo e que tem como desafio elaborar de forma estritamente racional um discurso que alcance e inclua o tema do Absoluto como fundamento mesmo do próprio discurso e como exigência da racionalidade”. A explicação é do filósofo Rubens Godoy Sampaio, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Fundamentado na categoria da Transcendência, o sistema vaziano é a resposta elaborada “de forma original e inovadora à crítica contemporânea à metafísica cuja consequência mais devastadora para a nossa civilização é sem dúvida alguma o império de um horizonte marcado indelevelmente pelo niilismo ético”. Sobre a ontologia da intersubjetividade, assinala que as relações intersubjetivas são parte do ser humano. “O discurso que o homem tece sobre si mesmo não estaria completo se prescindisse desse aspecto constitutivo e ineliminável que é ser-com-os-outros, aspecto que é marcado sobretudo pela característica da reciprocidade”.

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e em Direito pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, é mestre em Filosofia pela UFMG com a dissertação A Ontologia da Intersubjetividade no pensamento de Henrique Cláudio de Lima Vaz e doutor na mesma área pela Universidade Gama Filho – UGF, com a tese Metafísica e Modernidade: método e estrutura, temas e sistema no pensamento de Henrique Cláudio de Lima Vaz (São Paulo: Loyola, 2005). De sua produção bibliográfica citamos Crise ética e advocacia (Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2000) e O Ser e os Outros (São Paulo: Unimarco Editora, 2001). É servidor público federal da Justiça Federal de São Paulo
Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é a ontologia da intersubjetividade no pensamento de Lima Vaz? 
Rubens Godoy Sampaio – Antes de responder a essas perguntas vou desenhar uma moldura no interior da qual serão respondidas as outras questões. A primeira ideia importante a respeito do pensamento de Lima Vaz é a seguinte: o termo de toda a sua trajetória filosófica foi a elaboração de um sistema filosófico. Seu pensamento apresenta-se como uma obra de envergadura sistemática. Seu sistema caracteriza-se por uma estrutura triádica e tem como pilares sua antropologia (nos livros Antropologia filosófica I e II), sua ética (nos livros Escritos de filosofia IV e V) e sua metafísica (Escritos de filosofia VII – Raízes da Modernidade). Estes são os livros principais do seu sistema. Todavia é possível encontrar aspectos de sua antropologia, de sua ética e de sua metafísica em outros livros bem como em muitos artigos nos quais certos assuntos são aprofundados. Por exemplo, o livro Escritos de filosofia III aprofunda em alguns artigos a categoria de transcendência apresentada sistematicamente no interior da seção sobre as categorias de relação do livro publicado anteriormente, a Antropologia filosófica II. Enfim, o sistema é o estuário, é o telos de toda a sua produção filosófica.

Pois bem, o problema da ontologia da intersubjetividade é trabalhado de forma bem pontual na categoria de intersubjetividade apresentada na região categorial das relações. A antropologia vaziana é organizada em grupos de categorias. O primeiro grupo são as categorias de estrutura que incluem as categorias de corpo próprio, psiquismo e espírito. O segundo grupo são as categorias de relação: objetividade, intersubjetividade e transcendência. E finalmente as categorias de unidade: realização e pessoa. Como se vê a categoria de intersubjetividade é desenvolvida no âmbito das relações que o ser humano estabelece com o mundo (categoria de objetividade), com os outros (intersubjetividade) e com o Absoluto (transcendência). 

Assim, quando Lima Vaz apresenta o homem se afirmando como um ser de natureza intersubjetiva, ele está dizendo que as relações humanas constituem o ser humano como tal, de forma que esse aspecto do discurso que o ser humano faz sobre si mesmo é ineliminável ou irredutível a qualquer outra realidade possível. As relações intersubjetivas fazem parte do ser do homem. O discurso que o homem tece sobre si mesmo não estaria completo se prescindisse desse aspecto constitutivo e ineliminável que é ser-com-os-outros, aspecto que é marcado sobretudo pela característica da reciprocidade. Se a relação com o mundo dos objetos, da técnica, é marcada pela não reciprocidade, a relação intersubjetiva tem como principal elemento o reconhecimento e a reciprocidade constitutiva desse tipo de relação. Além do mais, é exatamente a partir da categoria de intersubjetividade que Lima Vaz realiza no plano do discurso o entrelaçamento entre antropologia e ética.

IHU On-Line – Como metafísica e Modernidade se entrelaçam na obra desse filósofo?
Rubens Godoy Sampaio – Metafísica e Modernidade são dois temas importantes que funcionam como grandes eixos organizadores de todo o pensamento de Lima Vaz. Se quisermos usar uma metáfora ou uma imagem da biologia, a hélice do DNA é um exemplo magnífico para demonstrarmos que as duas hélices, que giram dando origem àquele movimento helicoidal, no pensamento vaziano corresponderiam exatamente à metafísica de um lado, e à Modernidade, de outro. Assim, na busca de tratar do problema da afirmação do Absoluto no discurso filosófico (seja na antropologia, na ética e ou na metafísica) Lima Vaz apresenta em chave dialética, de inspiração platônica e hegeliana, a metafísica do existir de São Tomás de Aquino em confronto com todo o processo de gênese da Modernidade. Em outras palavras, a compreensão vaziana da tensão entre razão moderna e metafísica apresenta-se na forma de um sistema com uma base teórica de inspiração tomásica, fundada na metafísica do existir, e com uma base metodológica de inspiração dialética (platônico-hegeliana). 

É no interior desse diálogo entre razão metafísica e razão moderna que Lima Vaz vai ao longo de toda sua vida desenvolvendo os temas da consciência histórica, do mundo, da intersubjetivdade, da ética, da Transcendência até que, a partir dos anos 1990, ele começa a organizar todos esses assuntos de forma sistemática e metódica, o que resultará no sistema que anunciamos na primeira resposta. E o método utilizado por Lima Vaz para articular os termos e os temas de seu sistema está minuciosamente desenvolvido no capítulo Objeto e método da antropologia filosófica no livro Antropologia filosófica I. Esse capítulo inaugura a parte sistemática da antropologia filosófica e será repetidamente utilizado em todas as categorias da antropologia, da ética e da metafísica. Portanto, para se entender como Lima Vaz elabora seu discurso, passo a passo, é imprescindível a assimilação do método descrito nesse capítulo.

IHU On-Line – De que forma Lima Vaz rebate as críticas à metafísica, como aquelas empreendidas por Nietzsche  e Heidegger , por exemplo?
Rubens Godoy Sampaio – Lima Vaz é jesuíta, membro da Companhia de Jesus fundada por Inácio de Loyola  no século XVI. Sua formação é cristã e católica. Lima Vaz é um filósofo erudito que leu os gregos no original com uma formação sólida encontrada apenas nas melhores universidades do mundo. Sem dúvida alguma nosso autor, brasileiro e mineiro de Ouro Preto, Minas Gerais, está entre os maiores filósofos do século XX. O seu grande desafio como filósofo e padre foi justamente elaborar um discurso filosófico coerente, sólido, fundamentado em toda a grande tradição filosófica no seio mesmo da Modernidade, cujo selo é exatamente o do niilismo. Seu grande desafio foi estabelecer um diálogo com a tradição filosófica que permitisse a elaboração de um discurso sensato que superasse o niilismo. Ou seja, a filosofia de Henrique Cláudio de Lima Vaz é a obra de um homem de fé, que professa o cristianismo e que tem como desafio elaborar de forma estritamente racional um discurso que alcance e inclua o tema do Absoluto como fundamento mesmo do próprio discurso e como exigência da racionalidade. Desta forma, seu sistema, cujo fundamento é a categoria de Transcendência, presente desde o início de seu discurso como fundamento e condição de possibilidade do mesmo discurso, é a resposta que Lima Vaz elaborou de forma original e inovadora à crítica contemporânea à metafísica cuja consequência mais devastadora para a nossa civilização é, sem dúvida alguma, o império de um horizonte marcado indelevelmente pelo niilismo ético. 

IHU On-Line – Quais são as maiores influências filosóficas de Lima Vaz? 
Rubens Godoy Sampaio – Lima Vaz foi um leitor e um intérprete de toda a tradição filosófica. Ele leu os grandes autores sempre no original em grego, latim, alemão ou em qualquer língua que fosse. Tal como eu já disse, Lima Vaz foi um homem de profunda e inigualável erudição. Então, em primeiro lugar é necessário saber que este homem leu e estudou o que de melhor podia ser lido e estudado a respeito da tradição filosófica do Ocidente. Ele foi um profundo conhecedor da nossa tradição filosófica e tal fato permitiu que ele dialogasse com mais de dois mil anos de produção filosófica. Mas é claro que alguns autores o marcaram de forma indelével. São eles, Platão, Aristóteles, Agostinho, São Tomás e Hegel. E a presença desses autores é explícita em toda a sua obra, seja pelo conteúdo propriamente dito, seja pelo método assimilado e utilizado, sobretudo por Platão e Hegel.

IHU On-Line – Dentro desse contexto, como podemos compreender o impacto de Hegel no pensamento vaziano? Em que aspectos Lima Vaz conserva e supera o hegelianismo? 
Rubens Godoy Sampaio – O pensamento vaziano desdobra-se em sistema por meio do método dialético de matriz platônico-hegeliana. Lima Vaz entende a dialética platônica como ontologia e método, por meio da qual Platão busca realizar a reductio ad unum mostrando que existe uma unidade do logos epistêmico quando ele descreve seu movimento de unificação dos conceitos supremos e dos primeiros princípios da Razão. Segundo o próprio Lima Vaz, o projeto hegeliano consistiu em “repensar a antiga metafísica como Lógica” e teve como lugar o terreno da subjetividade moderna ou da forma moderna de uma metafísica da imanência. Contudo este projeto não logrou restaurar o movimento ascendente em direção a uma transcendência real do ser, próprio e constitutivo do noûs ou do intellectus da tradição grega. Pois bem, quando Lima Vaz trata do tema da transcendência, ele o faz, apropriando-se do método dialético e apontando em direção a um Absoluto real, ao Ser Infinito que é ato puro de existir, ao Ipsum esse subsistens, tratado na Antropologia filosófica como categoria de Transcendência e como Pessoa Infinita, tratado na Ética como Bem e Fim, e na Metafísica como Ser e Existência, fundamento da metafísica do existir de São Tomás de Aquino. Isto é possível porque o procedimento dialético não é um simples procedimento formal no qual uma lógica qualquer é aplicada a um conteúdo que lhe é exterior. O procedimento dialético traduz a lógica intrínseca do conteúdo, o dinamismo da sua própria inteligibilidade. “Eis por que o método dialético parte do conteúdo mais elementar, ou seja, a afirmação ‘alguma coisa é’ e tem início com a suprassunção, por meio do argumento de retorsão da mais primitiva oposição, a que opõe o ser e o nada, suprassunção expressa logicamente pelo princípio de não contradição” (Raízes da Modernidade, p. 158).

IHU On-Line – Lima Vaz constatava o avanço prodigioso da razão técnica e a indigência da razão ética em nossa civilização. A partir dessa ideia, em que aspectos sua filosofia promove uma reflexão e uma crítica ao paradoxo da racionalidade ao qual estamos submetidos? 
Rubens Godoy Sampaio – A reflexão sobre a técnica está presente em vários lugares da obra vaziana. Mas alcança seu ponto de elaboração sistemática na categoria de objetividade. Esta é a primeira categoria de relação. Na sequência vem a categoria de intersubjetividade e depois a categoria de transcendência. Todas trabalhadas no segundo volume da Antropologia filosófica.

A categoria de Objetividade inaugura o segundo livro da Antropologia, e nela Lima Vaz elabora de forma discursiva, submetendo ao mesmo método do volume I, o problema da relação do ser humano com o mundo, com as coisas que estão ao seu redor, com a técnica e com a ciência. Os termos do desenvolvimento desta categoria situam-se entre os dois extremos da tecnocracia e da tecnoclastia. Para Lima Vaz o homem é um ser no mundo, mas o discurso do homem sobre si mesmo não se esgota na sua relação com a natureza, pois, pelo princípio da ilimitação tética, o discurso é lançado para níveis superiores de relação, a saber, a relação com os outros e a relação com o Absoluto. Contudo, o lugar da técnica no mundo atual tem feito com que exista uma certa predominância desta forma de compreender o mundo, explicá-lo e transformá-lo. O predomínio da razão técnica e do discurso científico não se mantém nos limites do mundo objetivo. Ao contrário, o êxito da racionalidade científica fez com a mesma modalidade de produção de conhecimento transbordasse o campo do seu objeto específico para que, por meio dela, se pretendesse compreender todas as outras dimensões da vida humana. Assim, os termos dessa pergunta, o predomínio da razão técnica e a indigência da razão ética, podem ser tratados como um desdobramento da tensão existente entre metafísica e Modernidade. Em decorrência da hipertrofia do discurso tecnocientífico, tudo aquilo que extrapolasse os lindes do hipotético-dedutivo foi tido como irracional e, portanto, incapaz de ser submetido aos cânones do discurso da racionalidade técnica. É justamente isso que Lima Vaz tenta reinventar, tornando possível um discurso racional sobre o Absoluto, sobre o Bem, sobre o Fim, sobre o Ser, partindo da metafísica do existir de Santo Tomás e utilizando-se do método dialético para a elaboração desse discurso filosófico.

IHU On-Line – Como podemos compreender os conceitos de vida vivida e vida pensada, apontados por Vaz na transição da primeira para a segunda Modernidade? E o que seriam essa primeira e segunda Modernidade a que se refere?
Rubens Godoy Sampaio – Os conceitos de vida vivida, pensada e refletida têm sua correspondência com as etapas de elaboração de cada uma das categorias antropológicas, éticas e metafísicas. Ao construir cada uma de suas categorias, Lima Vaz apresenta a pré-compreensão (a expressão natural, não elaborada conceitualmente) de cada uma delas, a compreensão explicativa (dada pela ciência) e a compreensão filosófica ou dialética, por meio da qual se dá efetivamente a construção do discurso filosófico a respeito de cada uma das categorias. 

Agora, para encerrar e apresentar o que Lima Vaz entende por Modernidade, prefiro transcrever uma página de seu livro Escritos de filosofia VII – Raízes da Modernidade, seja como forma de homenageá-lo, seja como forma de apresentar, para quem nunca o leu, o brilhantismo e a profundidade filosófica deste autor, que, como eu já disse e torno a repetir, é um dos maiores filósofos do século XX:

“A aspiração talvez mais genuína do projeto filosófico da Modernidade, cuja primeira realização histórica foi, sem dúvida, a razão cartesiana, reencontra de alguma maneira, após o declínio do pensamento medieval e da tradição renascentista, os desafios teóricos que estão na origem da filosofia antiga. Em correspondência com a crítica do mito, a filosofia moderna é, principalmente, uma crítica da tradição teológica cristã. É igualmente, a descoberta de uma nova forma de razão, capaz, por um lado, de submeter o destino aos desígnios humanos e, por outro, de interpretar a natureza para melhor dominá-la e transformá-la. Esse grandioso projeto, não obstante sua pretensão de ser a instauração radical de um novo mundo humano, tem suas raízes históricas. Pensamos identificá-las justamente na transformação medieval da razão antiga como pensamento das essências pela afirmação primeira da inteligibilidade do esse. Em virtude dessa transformação, e dela dependendo, a razão filosófica moderna se vê em face da interrogação primeira, que atinge o ser da realidade no seu núcleo mais profundo: que forma de inteligibilidade se deve pressupor ou pré-compreender no existir como tal, no simples ato de ser? Para a razão moderna, essa interrogação não pode ser evitada, tendo ela herdado das suas raízes medievais a injunção teórica incontornável de pensar a existência na sua singularidade irredutível à universalidade da essência: o esse só é pensável protologicamente, ou seja, segundo a identidade do primum ontologicum e do primum logicum: como esse absoluto.
O verdadeiro coração teórico da Modernidade é o projeto de extrema audácia, cuja execução vem transformando radicalmente a vida humana nos últimos quatro séculos, que tem em vista a plena reinscrição teórica e operacionalmente, nos códigos da razão científica, do universo, da vida, do ser humano e das suas condutas. Interpretado como projeto histórico que se justifica a si mesmo, ou seja, que encontra sua razão de ser no próprio devir imanente da história, esse projeto deixa muito longe, em radicalidade, os paradigmas da “vida na razão” (bíos theorétikós) como ideal da filosofia antiga. Mas, paradoxalmente ou mesmo contraditoriamente, trata-se de um projeto que tem por objeto a construção de um absoluto no interior do próprio devir histórico. É permitido afirmar, por conseguinte, que o desafio especulativo de pensar um absoluto que se exterioriza no movimento mesmo que o constitui é verdadeiramente, o problema matricial, o problema-fonte de todos os grandes problemas da filosofia moderna. 

Nesse ponto convém lembrar que as origens longínguas do propósito de pensar o ser como absoluto, constituindo o primeiro passo da razão teórica, remontam a Parmênides . O pensador eleata é, pois, o iniciador da ontologia como ciência do ser. No entanto, a ontologia parmenidiana se exaure na tautologia do princípio de identidade: o ser é. Como introduzir a diferença na identidade sem relativizar o ser uno e absoluto na pluralidade do múltiplo? (...) Essa situação metafísica na qual tem lugar o primeiro passo do itinerário do discurso do esse encontrou um primeiro modelo de explicação na teoria neoplatônica da processão da primeira Inteligência a partir do Uno, e, na filosofia cristã, um segundo modelo na teoria agostiniana da iluminação. Ora, tal situação reaparece, em analogia eloquente, no problema filosófico moderno da relação entre Razão e Existência. É possível reconduzir a existência, desde o simples ato de existir, aos cânones explicativos da Razão humana, entendida como geratriz de toda inteligibilidade? Em outras palavras, a Razão humana pode reivindicar os atributos do Esse subsistente? Essa interrogação é inevitável como consequência do postulado imanentista radical da filosofia moderna. Tal postulado anima o projeto de construção da “cidade do homem”, onde os problemas metafísicos terão sua solução natural ou declaradamente pós-metafísica. A carta magna da “cidade do homem” é promulgada em nome da Razão na sua modalidade de razão científica e no seu uso operacional, medido pela sua eficácia na produção de objetos. 

Ora, a razão científico-operacional é uma razão intrinsecamente ligada ao agir e ao fazer humanos.
Ela observa, estabelece normas, formula hipóteses, mede e calcula, rege a produção de objetos. Pressupõe, portanto, o estar-no-mundo do sujeito racional, o seu simples existir enquanto dado a si mesmo, em meio às coisas que igualmente lhe são dadas. Mas essa situação, que pode ser denominada situação ôntico-primária, permanece impensada pela razão científico-operacional. Como recuperar para o universo luminoso da razão o fundo obscuro do simples existir? É a essa interrogação, vinda dos começos do caminho grego do logos, que a metafísica de Tomás de Aquino respondeu com a intuição da inteligibilidade do Esse absoluto como ato de infinita perfeição. Tal intuição assume então a forma de uma pré-compreensão fundante de toda a atividade da razão. No entanto, como antes já observamos, ela contempla o Esse absoluto como fonte de toda inteligibilidade na sua objetividade transcendente. Em outras palavras, a intuição do Esse é ato de uma razão que se mostra assim capaz de elevar-se à theoria desinteressada do Ser (capax entis)” (H. C. de Lima Vaz. Escritos de filosofia VII – Raízes da Modernidade., 1ª edição, São Paulo, Loyola, 2002. p. 100)